Conjugação Verbal do Uomé
Versão 6.1 — revisão da posição e do escopo da negação
O sistema verbal do Uomé organiza-se principalmente por partículas que acrescentam informações de aspecto, anterioridade, modo e validação predicativa. Essas partículas não correspondem diretamente às terminações verbais das línguas flexionais: cada uma acrescenta uma camada semântica específica e, quando compatíveis, podem ser combinadas. O valor temporal também pode ser estabelecido por enquadradores cronológicos da oração, como tɔī, tɔdō e tɔhā. Por isso, os marcadores aspectuais são interpretados em relação ao ponto de referência disponível, e não como tempos absolutos equivalentes aos paradigmas do português.
Visão geral do sistema verbal
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Marcador
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Categoria
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Valor principal
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Equivalência aproximada
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Exemplo em Uomé
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Português
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|---|---|---|---|---|---|
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∅
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Indicativo real
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Fato, verdade geral ou ação real ou habitual recuperável pelo contexto
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presente / habitual / valor não marcado
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Wa kapomo kas̆imī.
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Eu faço a tarefa.
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s̆u
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Aspecto concluído
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Evento apresentado como concluído ou delimitado relativamente ao ponto de referência
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pretérito perfectivo / conclusão relativa
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Wa s̆u kapomo kas̆imī.
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Eu fiz a tarefa.
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dō
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Aspecto progressivo
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Ação em andamento relativamente ao ponto de referência
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estar + gerúndio / andamento relativo
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Wa dō ys̆ika.
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Eu estou olhando.
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hā
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Aspecto prospectivo
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Ação projetada, ainda não realizada em relação ao ponto de referência
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futuro / vou + verbo / prospectividade
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Wa hā ğāgra.
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Eu falarei / vou falar.
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ī
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Anterioridade
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Situa a referência antes de outro ponto temporal; combina-se com outros aspectos
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anterioridade
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Wa ī dō ys̆ika.
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Eu estava olhando.
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hȳ
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Modo hipotético
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Hipótese, dúvida, desejo ou condição
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subjuntivo hipotético
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Wa hȳ kapomo kas̆imī.
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Se eu fizesse a tarefa.
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s̆uhca
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Modo potencial
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Ação possível ou dependente de condição
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condicional / potencial
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Wa s̆uhca kapomo kas̆imī.
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Eu faria a tarefa.
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kcɔ
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Modo volitivo
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Ordem, comando ou vontade direta. Na norma, kcɔ é expresso nos imperativos.
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imperativo
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¡Kapomo kcɔ kas̆imī!
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Faça a tarefa!
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ja
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Validativo / modal
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Valida a predicação; no uso modal, apresenta realização desejada, admitida ou não assertada
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subjuntivo presente / ênfase validativa
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Wa kapomo ja kas̆imī.
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Que eu faça a tarefa.
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Observação: na norma do Uomé, kcɔ é expresso nos comandos. Na fala coloquial, pode ser omitido quando a entonação e o contexto já tornam o valor volitivo inequívoco.
Aspecto e anterioridade
Os marcadores aspectuais mostram como o falante apresenta o desenvolvimento do evento. Seu valor é relativo ao ponto de referência disponível. A anterioridade ī não encerra a ação por si só: ela desloca a referência para um momento anterior e pode combinar-se com marcadores de andamento ou conclusão. Um enquadrador temporal externo, como tɔhā, também pode fornecer o ponto de referência a partir do qual s̆u ou dō são interpretados.
Formas básicas
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Marcador
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Valor
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Descrição
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Uomé
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Português
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|---|---|---|---|---|
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s̆u
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concluído
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ação apresentada como realizada ou delimitada
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Wa s̆u ys̆ika.
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Eu olhei.
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dō
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andamento
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ação em execução
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Wa dō ys̆ika.
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Eu estou olhando.
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hā
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projeto
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ação ainda não realizada, mas projetada
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Wa hā ys̆ika.
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Eu olharei / vou olhar.
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Combinações aspectuais
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Forma em Uomé
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Tradução aproximada
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Valor principal
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|---|---|---|
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Wa dō ys̆ika.
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Eu estou olhando.
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ação atualmente em execução
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Wa ī dō ys̆ika.
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Eu estava olhando.
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ação em execução num momento anterior
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Wa s̆u dō ys̆ika.
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Eu estive olhando.
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período de ação continuada já encerrado
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Wa s̆u ys̆ika.
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Eu olhei.
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ação realizada, vista como concluída
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Wa ī s̆u ys̆ika.
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Eu tinha olhado / já havia olhado.
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ação concluída anteriormente a outra referência passada
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Maria s̆u ğāgra João ī hā tɔuh bɔro.
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Maria disse que João iria ao mercado.
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ação projetada como posterior a uma referência passada
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ī dō — andamento em referência anterior
Wa ī dō ys̆ika.
Eu estava olhando.
ī situa a ação num momento anterior ao presente, enquanto dō mantém o foco em seu desenvolvimento. A construção não afirma que a ação já estivesse concluída naquele momento.
Wa ī dō ys̆ika pəfa, La s̆u latɔtūn.
Eu estava olhando a caixa quando ele chegou.
s̆u dō — atividade durativa já encerrada
Wa s̆u dō ys̆ika.
Eu estive olhando.
s̆u delimita o episódio completo como realizado, enquanto dō mostra que, dentro desse episódio, a ação permaneceu em desenvolvimento. As duas partículas não são contraditórias porque observam camadas diferentes do mesmo evento.
Wa s̆u dō ys̆ika ğas̆wē ho haz̆ɔ.
Eu estive olhando os escritos durante a manhã.
ī s̆u — anterioridade de ação concluída
Wa ī s̆u ys̆ika.
Eu tinha olhado. / Eu já havia olhado.
Nessa combinação, s̆u marca a execução como concluída e ī indica que essa conclusão ocorreu antes de outro momento ou acontecimento passado.
Wa ī s̆u ys̆ika pəfa, la s̆u tũlā lo.
Eu já tinha visto a caixa quando ele a levou.
Assim, ī s̆u não é usado neste sistema para expressar “eu fazia” ou “eu estava fazendo”. O valor de ação em andamento num momento anterior é expresso por ī dō. A habitualidade passada também não exige ī s̆u: ela pode ser construída por enquadramento temporal passado mais predicação não marcada e expressões de frequência ou distribuição.
ī hā — prospectividade a partir de uma referência anterior
ī hā combina a anterioridade de ī com a prospectividade de hā. Apresenta um evento como ainda não realizado em relação a um ponto de referência situado no passado. Pode corresponder ao futuro do pretérito quando este expressa apenas futuro em relação a um passado, sem valor condicional.
Maria s̆u ğāgra João ī hā tɔuh bɔro.
Maria disse que João iria ao mercado.
Aqui, a ida de João é projetada como posterior à fala de Maria, que funciona como referência passada. ī hā não indica, por si só, condição.
Contraste com s̆uhca
ī hā situa uma ação projetada como futura relativamente a uma referência anterior. s̆uhca, por sua vez, apresenta uma ação possível, potencial ou dependente de condição. Assim, “iria” por simples relação temporal pode ser expresso por ī hā, enquanto “iria se...” pertence ao domínio de s̆uhca.
hā dōkcɔ — construção regular de iminência
hā dōkcɔ expressa iminência: um acontecimento ainda não realizado é apresentado como muito próximo de ocorrer. hā marca a prospectividade em relação ao ponto de referência, enquanto dōkcɔ é uma unidade lexical que significa “imediato, imediatamente, sem demora”. A combinação expressa prospectividade com proximidade temporal imediata.
Em predicações nominais ou adjetivais, pode-se usar a estrutura SUJEITO + ja + hā dōkcɔ. Trata-se de uma construção regular, e não de uma exceção ou de um novo marcador verbal. Embora dōkcɔ tenha surgido de dō + kcɔ, essa formação é lexicalizada: os valores originais de progressividade e volição não permanecem ativos nessa expressão.
Mā dəmohē Uomɛ̄ ja hā dōkcɔ.
O aniversário do Uomé está iminente.
Tɔqro ja hā dōkcɔ.
A chuva está iminente.
Contraste: hā projeta a realização sem determinar sua proximidade, dōkcɔ indica ausência de demora e hā dōkcɔ exprime a iminência. A sequência hā + verbo + dōkcɔ pode significar “fará imediatamente”, pois nesse caso dōkcɔ modifica a execução da ação, e não constitui a predicação de iminência.
dōtɔ ... hāka — ação que permanece por fazer
A expressão portuguesa “ficar por fazer” não é expressa por ī hā. Para esse sentido, o Uomé combina dōtɔ, “permanecer em determinado estado”, com o particípio passivo prospectivo hāka. A construção apresenta o referente como algo que permanece à espera de receber a ação.
Qəhcɛ dōtɔ kapomo hāka.
A obrigação fica por fazer. / A obrigação permanece a ser feita.
Qəhcɛ s̆u dōtɔ kapomo hāka.
A obrigação ficou por fazer.
Nesse uso, dōtɔ marca a permanência no estado de pendência e hāka apresenta a ação como ainda projetada sobre o referente. A construção não implica que a ação tenha estado perto de acontecer; por isso, distingue-se de poũx, que indica um evento quase realizado, mas frustrado.
Particípios
Os particípios distinguem três estágios aspectuais — concluído, andamento e projeto — e apresentam formas ativas e passivas.
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Aspecto
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Ativo
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Passivo
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|---|---|---|
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Concluído
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s̆u
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s̆uka
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Andamento
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dō
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dōka
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Projeto
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hā
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hāka
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A oposição entre o uso finito e o participial é principalmente sintática. Nos usos finitos básicos, s̆u, dō e hā antecedem o verbo (Wa s̆u kapomo..., Wa dō kapomo..., Wa hā kapomo...). Nos particípios ativos, os marcadores aparecem após o verbo: s̆u no concluído, dō no andamento e hā no projeto (Kapomo s̆u..., Kapomo dō..., Kapomo hā...). As formas passivas correspondentes são s̆uka, dōka e hāka.
Exemplos de particípios
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Em Esperanto
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Em português
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Em Uomé
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|---|---|---|
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Farinta la lecionon, li estas trankvila.
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Tendo feito a lição, ele está tranquilo.
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Kapomo s̆u kas̆imī, la samōsā.
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Faranta la lecionon, li fariĝas trankvila.
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Fazendo a lição, ele fica tranquilo.
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Kapomo dō kas̆imī, la samōsā.
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Faronta la lecionon, li fariĝos trankvila.
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Tendo ainda a lição para fazer, ele ficará tranquilo.
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Kapomo hā kas̆imī, la samōsā.
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Farita la leciono, li estas trankvila.
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Com a lição feita, ele está tranquilo.
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Kapomo s̆uka kas̆imī, la samōsā.
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Farata la leciono, trankviligas lin.
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A lição sendo feita o tranquiliza.
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Kapomo dōka kas̆imī, la samōsā.
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Farota la leciono, trankviligas lin.
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A lição que está para ser feita o tranquilizará.
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Kapomo hāka kas̆imī, la samōsā.
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Nota: na linha do particípio ativo prospectivo, hā exprime realização projetada, não necessariamente iminente. A expressão “prestes a” exige que a proximidade temporal seja marcada pelo contexto ou pela construção hā dōkcɔ.
Voz passiva analítica
Na voz passiva analítica, as formas com -ka apresentam o referente como participante que recebe ou sofre a ação, mantendo a distinção aspectual entre conclusão, andamento e projeto.
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Valor passivo
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Uomé
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Português
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|---|---|---|
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Concluída
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Wa s̆uka ys̆ika.
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Eu fui observado / já fui observado.
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Concluída anterior
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Wa ī s̆uka ys̆ika.
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Eu já havia sido observado.
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Em andamento
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Wa dōka ys̆ika.
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Eu estou sendo observado.
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Projetada
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Wa hāka ys̆ika.
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Eu serei observado / vou ser observado.
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Alternância de valência, mudança de estado e reflexividade
A voz passiva com -ka deve ser distinguida de construções em que o próprio referente apenas passa por uma mudança de estado sem que um agente seja perfilado. Em Uomé, alguns verbos de mudança de estado podem apresentar alternância de valência quando o significado lexical permitir: em uso transitivo, um agente causa a mudança em outro participante; em uso intransitivo, o participante afetado ocupa sozinho a posição de sujeito e a mudança é apresentada sem agente expresso.
Alternância causativa e anticausativa
Com verbos compatíveis, a mesma raiz pode ocorrer em uma construção causativa/transitiva ou anticausativa/intransitiva. A construção anticausativa não afirma que o referente tenha vontade, iniciativa ou agência própria. Uma causa externa pode existir — vento, gravidade, mecanismo, temperatura ou outra condição — sem ser apresentada como agente da oração.
Wa s̆u sahpə̃ təğrē.
Eu fechei a porta.
Təğrē s̆u sahpə̃.
A porta se fechou.
No primeiro exemplo, wa causa o fechamento de təğrē. No segundo, təğrē é o único participante sintático e a oração descreve a mudança de estado. A ausência de -ka não obriga o sujeito a ser agente.
O português “se” não é traduzido automaticamente
O pronome português se reúne funções diferentes. Quando apenas apresenta uma mudança de estado sem agente perfilado, como em “a porta se fechou”, ele pode não ter correspondência formal em Uomé. Não se acrescenta automaticamente nyğa nem um pronome de terceira pessoa como lo/co apenas porque o português contém se.
nyğa mantém seu valor próprio de identidade correferente ou enfática — “o próprio”, “si mesmo” — e deve ser usado quando houver verdadeira correferência ou realce de identidade. Empregá-lo mecanicamente em Təğrē nyğa sahpə̃ tornaria a expressão marcada, aproximando-a de “a própria porta fecha” ou, conforme a valência e o contexto, de uma leitura reflexiva desnecessária. Do mesmo modo, lo/co são pronomes ordinários e só aparecem quando ocupam uma função argumental real; não funcionam como marcadores anticausativos.
Contraste com a voz passiva
As formas em -ka continuam reservadas à voz passiva: apresentam o referente como participante que recebe ou sofre a ação. Por isso, a oposição entre forma simples e forma passiva é semanticamente relevante.
Təğrē s̆u sahpə̃.
A porta se fechou. — mudança de estado sem agente perfilado.
Təğrē s̆uka sahpə̃.
A porta foi fechada. — participante afetado apresentado em voz passiva.
Təğrē dō sahpə̃.
A porta está fechando. — processo de fechamento em andamento.
Təğrē dōka sahpə̃.
A porta está sendo fechada. — processo passivo em andamento.
ī s̆uka — passiva concluída em referência anterior
A combinação ī s̆uka acrescenta anterioridade ao particípio passivo concluído. A ação sofrida pelo referente já estava concluída antes de outro ponto passado. A construção não descreve o processo ainda em andamento: esse valor pertence a ī dōka.
Təğrē ī s̆uka sahpə̃.
A porta havia sido fechada.
Contraste: s̆uka sahpə̃ = foi fechada; ī s̆uka sahpə̃ = havia sido fechada; ī dōka sahpə̃ = estava sendo fechada. A anterioridade é relativa a uma referência passada, que pode ser explícita ou recuperada do contexto.
Passivo progressivo em referência passada e futura
A anterioridade pode combinar-se regularmente com a passiva em andamento: ī desloca a referência para um momento anterior, enquanto dōka mantém simultaneamente andamento e passividade. Para um ponto futuro, tɔhā fornece o enquadramento cronológico e o particípio passivo de andamento pode aparecer após o verbo, caracterizando o evento naquele ponto futuro.
Təğrē ī dōka sahpə̃.
A porta estava sendo fechada.
Tɔhā təğrē sahpə̃ dōka.
A porta estará sendo fechada.
Série de referência com sahpə̃
A série abaixo resume a oposição entre forma não marcada, aspecto, mudança de estado e passiva. O Uomé não precisa reproduzir palavra por palavra o se português quando a própria estrutura intransitiva já apresenta a mudança de estado.
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Português
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Uomé
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Valor
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|---|---|---|
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A porta fecha.
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Təğrē sahpə̃.
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predicação real / uso intransitivo possível
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A porta está fechada.
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Təğrē sahpə̃.
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predicação qualificativa; estado de fechamento
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A porta está aberta.
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Təğrē wɔaha.
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predicação qualificativa; estado de abertura
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A porta vai fechar.
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Təğrē hā sahpə̃.
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mudança projetada
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A porta se fechou.
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Təğrē s̆u sahpə̃.
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mudança de estado concluída, sem agente perfilado
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A porta foi fechada.
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Təğrē s̆uka sahpə̃.
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passiva concluída
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A porta havia sido fechada.
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Təğrē ī s̆uka sahpə̃.
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anterioridade + passiva concluída
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A porta está fechando.
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Təğrē dō sahpə̃.
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mudança em andamento
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A porta está sendo fechada.
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Təğrē dōka sahpə̃.
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passiva em andamento
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A porta estava sendo fechada.
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Təğrē ī dōka sahpə̃.
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anterioridade + passiva em andamento
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A porta estará sendo fechada.
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Tɔhā təğrē sahpə̃ dōka.
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referência futura + passiva em andamento
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A alternância de valência não deve ser presumida para todo verbo transitivo. Ela é licenciada apenas quando o significado do verbo permite naturalmente apresentar a mudança de estado sem agente expresso. Quando necessário, o dicionário pode registrar essa possibilidade de valência.
Enquadramento temporal, habitualidade e enquadradores derivados
Aspecto relativo ao ponto de referência
O Uomé separa o enquadramento cronológico do aspecto. O trio cronológico é tɔī – tɔdō – tɔhā: tɔī aponta para um ponto anterior, tɔdō para o ponto atual e tɔhā para um ponto posterior. Essas formas localizam a situação no eixo temporal, mas não flexionam o verbo. Uma vez estabelecido o ponto de referência, os marcadores aspectuais descrevem o evento em relação a esse ponto. Por isso, s̆u não significa intrinsecamente “passado”: ele indica conclusão ou delimitação relativa à referência disponível. O prefixo correlativo tɔ- também pode apontar para domínios não estritamente cronológicos, o que permite enquadradores derivados como tɔs̆u, que aponta para uma conclusão identificada, e tɔhȳ, que aponta para uma hipótese identificada.
O trio cronológico: tɔī – tɔdō – tɔhā
tɔī, tɔdō e tɔhā formam o eixo indicativo cronológico. tɔī situa o referente num ponto anterior do fluxo temporal; tɔdō aponta para o momento atual; tɔhā aponta para um ponto posterior. O valor de cada forma é de enquadramento, não de conjugação verbal.
tɔī => naquele ponto anterior; então, no passado
tɔdō => neste ponto atual; agora
tɔhā => naquele ponto posterior; depois; então no futuro
Habitualidade no passado
O pretérito imperfeito habitual do português não exige um marcador habitual próprio no Uomé. A leitura habitual pode resultar de um enquadramento passado, normalmente com tɔī, seguido de predicação não marcada e de uma expressão de frequência ou distribuição. Com unidades temporais, X palih distribui a ocorrência por cada unidade.
Tɔī wa mogrɛ̄, wa kanȳh frãse s̆ɔɛlah palih.
Quando eu era criança, eu estudava francês todos os dias.
Tɔī wɛro tɔuh pãrə īawɛ palih.
Naquela época, nós íamos àquela loja uma vez por semana.
Quando īoh ocorre dentro de um quadro introduzido por tɔī, sua totalidade temporal é restringida pragmaticamente à época evocada: tɔī ... īoh ... = “naquela época, em todos os momentos pertinentes daquela época”.
Tɔī le īoh kapomo kas̆imī ləmo ny.
Naquela época, ela sempre fazia a tarefa à noite.
tɔhā — referência temporal prospectiva
tɔhā conserva o núcleo “em um ponto posterior do tempo” e admite dois usos relacionados. Pode funcionar como advérbio sequencial, com valor de “depois” ou “então”, e pode introduzir uma oração prospectiva que estabelece o ponto futuro a partir do qual outra ação é situada. Nesse segundo uso, corresponde contextualmente a “quando”, “depois que” ou “assim que”.
Wa hā kanȳh, tɔhā wa s̆u jamys̆ɔ.
Vou estudar e depois farei a prova.
Tɔhā la tɔuhtūn, wɛro hā kauh kas̆imī.
Quando ele chegar aqui, nós começaremos a tarefa.
Em tɔuhtūn, o ponto de chegada dêitico pode permanecer implícito quando é o “aqui” da situação. Um alvo diferente é explicitado, como em tɔuhtūn lā, “chegar ali”.
Conclusão ativa e passiva em referência futura
Sob o enquadramento prospectivo de tɔhā, a posição pós-verbal dos marcadores participiais permite caracterizar o estado do evento naquele ponto futuro. verbo + dō apresenta um evento em andamento. verbo + s̆u apresenta um evento ativamente concluído. A forma em -ka apresenta o participante afetado em voz passiva.
Tɔhā wa kas̆imī s̆u, wa tɔuh nymatũ.
Quando eu terminar o trabalho, irei para casa.
Tɔhā kas̆imī s̆uka, wa hā tɔuh nymatũ.
Quando o trabalho estiver terminado, irei para casa.
Compare ainda: Tɔhā wa kas̆imī dō, ... = “Quando eu estiver trabalhando...”. Nessas construções, s̆u não transporta o evento para o passado: indica que ele estará concluído relativamente ao ponto futuro estabelecido por tɔhā. Como tɔhā já fornece o enquadramento futuro, hā pode ser dispensado quando a leitura prospectiva é recuperável e pode ser expresso quando se deseja tornar a projeção explícita.
Interrogação temporal: ys̆hā
A série ys̆- permanece exclusivamente interrogativa. Portanto, ys̆hā serve para indagar “quando ocorrerá?”, mas não funciona como subordinador temporal. Nas orações prospectivas equivalentes ao futuro do subjuntivo português, o Uomé usa tɔhā e a configuração aspectual adequada.
Enquadradores derivados de aspecto e modalidade
Como tɔ- é o operador correlativo de indicação, ele não precisa combinar-se apenas com raízes cronológicas. Quando a base oferece um domínio interpretável que possa ser retomado como quadro, tɔ- pode apontar para esse domínio. Duas formações úteis ficam estabelecidas: tɔs̆u e tɔhȳ. Elas não pertencem ao trio cronológico tɔī – tɔdō – tɔhā.
tɔs̆u — ponto de conclusão identificado
tɔs̆u combina tɔ- “indicação” com s̆u “conclusão”. Aponta para a conclusão de um evento já introduzido e a transforma em marco para o que vem em seguida. Pode corresponder contextualmente a “feito isso”, “uma vez concluído”, “quando isso estiver concluído” ou “a partir daí”. Não significa passado por si só.
Wa hā kas̆imī. Tɔs̆u, wa hā tɔuh nymatũ.
Vou trabalhar. Feito isso, irei para casa.
La dō s̆lagə. Tɔs̆u, wɛro hā ğāgra.
Ele está comendo. Quando isso estiver concluído, nós conversaremos.
Contraste: tɔhā aponta para um ponto posterior no tempo; tɔs̆u aponta especificamente para o ponto em que um evento alcança conclusão. Assim, Tɔhā wa kas̆imī s̆u... enquadra uma oração futura cuja ação estará concluída, enquanto tɔs̆u retoma diretamente essa conclusão como marco discursivo.
tɔhȳ — hipótese identificada
tɔhȳ combina tɔ- “indicação” com hȳ “hipótese”. Retoma ou aponta para um cenário hipotético já estabelecido e o apresenta como quadro para a oração seguinte. Corresponde contextualmente a “nesse caso”, “nessa hipótese” ou “se for assim”, sem perder o caráter não factual do domínio retomado.
Mɛ hȳ kapomo tɔs̆im, tɔhȳ wa s̆uhca ceōkaɛh mɛ.
Se você fizesse isso, nesse caso eu ajudaria você.
La hȳ latɔtūn, tɔhȳ wɛro s̆uhca kauh kas̆imī.
Se ele viesse, nesse caso nós começaríamos a tarefa.
tɔhȳ não substitui hȳ dentro da oração hipotética. hȳ continua marcando a modalidade do predicado; tɔhȳ funciona como enquadrador anafórico ou indicativo do cenário hipotético.
Modos
hȳ — modo hipotético
Indica hipótese, dúvida, desejo ou condição.
Wa hȳ kapomo kas̆imī.
Se eu fizesse a tarefa.
s̆uhca — modo potencial
Indica uma ação possível ou dependente de condições.
Wa s̆uhca kapomo kas̆imī.
Eu faria a tarefa.
kcɔ — modo volitivo
Indica ordem, comando ou vontade direta. Na norma, kcɔ é expresso nos imperativos. Na fala coloquial, pode ser omitido quando a entonação e o contexto já tornam o mando inequívoco.
¡Kapomo kcɔ kas̆imī!
Faça a tarefa!
Imperativo negativo
O imperativo negativo não cria um paradigma verbal separado. A partícula ẽcẽ nega a predicação ou o constituinte ao qual se aplica. Sua posição é definida pelo escopo, não pela obrigação de encerrar a oração. Para ordens negativas, a construção preferida coloca ẽcẽ imediatamente depois do núcleo volitivo (verbo + kcɔ), antes dos complementos:
VERBO + kcɔ + ẽcẽ + complementos
¡Kapomo kcɔ tɔs̆im!
Faça isso!
¡Kapomo kcɔ ẽcẽ tɔs̆im!
Não faça isso!
Kcɔtūn kcɔ ẽcẽ wa hae.
Não me chame amanhã.
Tɔuh kcɔ ẽcẽ nymatũ, i̊ha.
Não vá para casa ainda.
Posição e escopo. A negação uomeana tende a seguir a unidade que é negada. Isso não obriga ẽcẽ a ocupar o fim da oração inteira. No imperativo, sua posição junto ao núcleo volitivo antecipa o reconhecimento da proibição; os complementos seguintes permanecem associados à situação descrita. Quando o foco negativo incide especificamente sobre outro constituinte, a posição de ẽcẽ deve respeitar esse escopo. A posição final continua possível se o contexto permitir uma interpretação inequívoca; não é, porém, obrigatória nem preferencial por princípio.
Tylĩ kcɔ ẽcẽ mā s̆im ho triğa ho wətcə hũwa.
Não pegue as coisas dos outros sem pedir.
Neste exemplo, a proibição incide sobre o ato de pegar as coisas de outras pessoas sem pedir. Não significa, por si só, que a mesma ação seja proibida quando houver autorização. A interpretação depende da unidade predicativa completa, e não de uma movimentação mecânica de ẽcẽ para o fim da frase.
A forma i̊ha escreve-se como uma única palavra. Em fala urgente, ẽcẽ pode aparecer isoladamente antes da ordem como alerta discursivo, sem substituir a negação sintática da oração.
¡Ẽcẽ! ¡S̆lagə kcɔ ẽcẽ tɔs̆im!
Não! Não coma isso!
ja — marcador validativo e modal
O núcleo de ja é a validação da predicação. Conforme a posição e o escopo, pode marcar modalidade equivalente ao subjuntivo presente, explicitar a predicação nuclear ou reforçar pragmaticamente uma proposição. Não corresponde lexicalmente à palavra portuguesa “sim”.
Wa kapomo ja kas̆imī.
Que eu faça a tarefa.
Uso modal pós-verbal
No uso modal, ja vem imediatamente depois do verbo e antes dos complementos que pertencem a esse verbo. Nesse emprego, apresenta a ação como desejada, admitida, subordinada ou não afirmada como fato independente, podendo corresponder ao subjuntivo presente em português.
Wa ūnx wilɛ ja wa ẽcẽ.
Eu não gosto que me rocem.
A sequência wilɛ ja wa mostra o escopo: ja modaliza wilɛ, enquanto wa permanece como paciente da ação.
Uso predicativo nuclear
Em predicações nominais ou adjetivais, ja pode tornar explícita a relação predicativa quando isso favorece a clareza. Nesse uso, não deve ser entendido como uma cópula lexical genérica, mas como marcador de validação e estabelecimento da predicação.
Le ja Maria.
Ela realmente é a Maria.
Quando a predicação precisa ser situada aspectualmente, ja pode introduzir o núcleo predicativo e ser seguido pelo marcador aspectual correspondente.
Mā cəvrūh bəs̆imo ja s̆u vrū o̊ waɛ̄.
O arranque da moto foi rápido e potente.
Predicação qualificativa sem cópula obrigatória
A fluidez das classes lexicais permite que um mesmo lexema funcione como verbo de mudança de estado ou como qualificativo que apresenta uma condição do referente. A predicação qualificativa é completa sem verbo de ligação e sem ja obrigatório. A função decorre da construção e do contexto, não de uma flexão lexical distinta.
Təğrē wɔaha.
A porta está aberta.
Təğrē sahpə̃.
A porta está fechada.
Ja permanece facultativo quando se deseja explicitar ou validar a predicação: Təğrē ja wɔaha. = A porta está aberta, de fato. Nesse emprego, ja não é equivalente lexical de “ser” ou “estar” e sua ausência não indica coloquialidade.
É importante preservar a diferença entre estado, mudança e passiva. Təğrē dō sahpə̃. = A porta está fechando. Təğrē dōka sahpə̃. = A porta está sendo fechada. As formas com dōka não substituem a predicação qualificativa de estado.
Exemplo com referência temporal discursiva
Tɔī sika təğrē z̆e tɔ. Dola wɔaha, lolā sahpə̃.
Havia apenas duas portas. Uma estava aberta, a outra estava fechada.
O enquadrador tɔī estabelece a referência passada. A frase seguinte pode conservar esse quadro por continuidade discursiva, mesmo após o ponto final. Os qualificativos permanecem não marcados, pois não se pretende descrever ações de abrir ou fechar em andamento.
Uso pragmático de validação
Em posição final, ja pode validar ou reforçar a proposição inteira. Nesse contexto, traduções como “sim”, “mesmo”, “realmente” ou “de fato” podem surgir em português, mas são equivalências contextuais, não o significado lexical básico da partícula.
Wa kapomo ja.
Eu faço sim. / Eu faço de fato.
Resumo de posição e escopo
Princípio geral de combinação
As partículas podem ser combinadas quando cada uma acrescenta uma camada semântica distinta. O sistema evita criar uma forma verbal independente para cada tempo ou modo equivalente do português e permite representar separadamente referência temporal, desenvolvimento, conclusão, modalidade e validação da predicação. Além de combinações entre partículas, o sistema admite a combinação de partícula e unidade lexical, como hā dōkcɔ (prospectividade + imediaticidade lexical).
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Combinação
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Camadas
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Resultado
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ī dō
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anterioridade + andamento
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ação em execução num momento anterior
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s̆u dō
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realização delimitada + andamento interno
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atividade durativa já encerrada
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ī s̆u
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anterioridade + realização concluída
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ação já concluída antes de outra referência passada
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ī hā
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anterioridade + prospectividade
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ação projetada como posterior a uma referência passada (“iria”)
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hā dōkcɔ
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prospectividade + imediaticidade lexical
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iminência; acontecimento prestes a ocorrer
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dōtɔ + verbo hāka
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permanência de estado + particípio passivo prospectivo
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ação que permanece por fazer / pendente
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tɔī + ∅ + X palih
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enquadramento passado + predicação não marcada + distribuição
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habitualidade passada
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tɔī ... īoh ...
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enquadramento passado + totalidade temporal contextual
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“sempre” dentro da época evocada
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tɔhā + verbo dō
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referência futura + andamento
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evento em curso no ponto futuro
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tɔhā + verbo s̆u
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referência futura + conclusão ativa
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evento concluído no ponto futuro
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tɔhā + s̆uka
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referência futura + conclusão passiva
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referente concluído no ponto futuro
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verbo + kcɔ + ẽcẽ + complementos
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volitivo + negação pós-núcleo
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imperativo negativo preferencial; complementos posteriores
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tɔs̆u
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indicação + conclusão retomada
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feito isso; uma vez concluído; marco de conclusão
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tɔhȳ
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indicação + hipótese retomada
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nesse caso; nessa hipótese; quadro hipotético indicado
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ī dōka
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anterioridade + passiva em andamento
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ação recebida em execução num momento anterior (“estava sendo...”)
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ī s̆uka
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anterioridade + passiva concluída
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ação recebida já concluída antes de outra referência passada (“havia sido...”)
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tɔhā + verbo dōka
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referência futura + passiva em andamento
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ação recebida em curso no ponto futuro (“estará sendo...”)
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O Uomé separa, portanto, o enquadramento cronológico, o eixo aspectual e o eixo modal/intencional. O trio tɔī – tɔdō – tɔhā organiza a localização cronológica, enquanto formas derivadas como tɔs̆u e tɔhȳ podem indicar, respectivamente, um ponto de conclusão ou um cenário hipotético já estabelecido. Essa organização permite indicar não apenas quando um evento é situado, mas também como o falante apresenta sua duração, seu desenvolvimento, sua conclusão e sua relação com outras referências. Enquadradores, distribuidores como palih e partículas verbais como s̆u, dō, hā, hȳ, kcɔ e ja podem cooperar sem que seja necessário criar uma forma verbal independente para cada tempo ou modo do português. Ja possui ainda usos predicativos e pragmáticos, cujo escopo é determinado sobretudo por sua posição na oração.
Regra de compartilhamento aspectual:
Em uma sequência de predicados coordenados com o mesmo sujeito, uma partícula aspectual (s̆u, dō, hā e eventualmente combinações como ī dō) pode ter escopo sobre todos os predicados seguintes do mesmo bloco coordenado, enquanto não houver outra partícula que altere esse enquadramento.
Repetição opcional: A partícula pode ser repetida para destacar a autonomia, sucessão ou delimitação individual de cada evento.
Repetição obrigatória: Quando o segundo predicado possui aspecto, anterioridade ou modalidade diferente, seu marcador próprio deve ser expresso.
Isso também deixa a língua mais natural: há economia quando o significado é recuperável, mas permanece a possibilidade de explicitar cada verbo quando isso traz informação.
Portanto, para o exemplo neutro:
Tɔs̆uca s̆u fȳčər o̊ s̆hā qɔta.
O barro secou e se tornou duro.
Omissão, explicitação e variação de registro
Em um bloco coordenado, os marcadores aspectuais podem ser compartilhados quando a estrutura permite recuperar seu escopo com segurança. A explicitação continua possível para realçar a sucessão ou a autonomia de cada predicado; torna-se necessária quando há mudança de aspecto, anterioridade ou modalidade que não possa ser inferida sem ambiguidade.
Wɛro s̆u tãcã kas̆imī o̊ kauh lolā dōkcɔ.
Terminamos uma tarefa e começamos outra imediatamente.
Wɛro s̆u tãcã kas̆imī o̊ s̆u kauh lolā dōkcɔ.
Terminamos uma tarefa e começamos outra imediatamente.
A segunda construção explicita o aspecto dos dois verbos. Ambas podem ocorrer em registros formais ou coloquiais; a economia sintática não é, por si só, um sinal de informalidade.
O alcance sintático de um marcador compartilhado não deve ser confundido com a continuidade da referência temporal entre frases. Um enquadrador como tɔī, tɔdō ou tɔhā pode continuar interpretativamente ativo após o ponto final sem que um marcador verbal se estenda automaticamente à oração independente seguinte.
Na escrita formal, técnica ou didática, é frequente explicitar informações quando isso aumenta a precisão. Na conversa familiar, o contexto partilhado pode favorecer elipses maiores. Trata-se de tendências discursivas, não de uma oposição rígida entre gramáticas formal e coloquial. Quando houver risco de ambiguidade, a explicitação é preferível em qualquer registro.
Substâncias em função verbal
No Uomé, palavras que designam substâncias ou materiais podem ocupar diretamente a posição verbal. Nesse uso, indicam que a substância é aplicada, colocada ou introduzida em relação a um alvo.
A relação exata é determinada pela estrutura:
Nem a construção direta nem ny implicam necessariamente cobertura ou preenchimento total; a completude depende do contexto ou de marcação específica.
As partículas verbais aplicam-se normalmente à substância verbalizada:
s̆u tɔs̆uca = aplicou/colocou barro dō tɔs̆uca = está aplicando/colocando barro hā tɔs̆uca = vai aplicar/colocar barro
A regra pode ser generalizada a outras substâncias quando semanticamente plausível. O significado básico permanece o mesmo: fazer a substância estabelecer uma relação material com o alvo; a sintaxe determina se há aplicação à superfície, deposição sobre ela ou introdução no interior.